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Pescadores estão revoltados porque baleias jubarte bloqueiam barcos em grupo, gerando disputa sobre quem “possui” o mar.

Homem em barco observa três baleias emergindo na água, com cauda visível. Outra embarcação ao fundo.

Skippers chamam de bloqueio. Biólogos chamam de comportamento aprendido. O oceano não vota, mas de repente dá a sensação de estar traçando linhas.

A primeira vez que vi, o sol ainda estava baixo e a maré corria como uma esteira lenta. O convés do arrastão cheirava a diesel e café, gaivotas costuravam arcos brancos no alto, e então a água subiu - dorsos escuros, respirações como vapor saindo de uma grade de rua. A conversa da tripulação murchou. Uma dúzia de jubartes emergiu numa fila irregular à frente da proa, as nadadeiras caudais se erguendo numa coreografia silenciosa. O mestre reduziu a aceleração. Ninguém gritou. Ninguém ousou. O mar parecia consciente. Ele levou a mão ao rádio e não apertou o transmitir. Então as baleias fecharam a formação.

Um impasse na linha d’água

Pergunte a cinco tripulações o que está acontecendo e você vai ouvir as mesmas duas palavras: “paredes coordenadas”. Não é um termo científico, mais uma descrição de convés para baleias surgindo lado a lado numa linha solta e móvel entre um arrastão e uma massa compacta de arenque ou manjuba. O efeito é chocante. Motores caem para a marcha lenta. Redes ficam recolhidas. Barcos derivam como móveis pesados. A mensagem parece inconfundível, mesmo que ninguém consiga traduzi-la com precisão.

Um mestre descreveu como o tráfego numa rodovia que de repente se abre ao redor de um caminhão lento e, depois, se fecha atrás dele. Um marinheiro me mostrou um vídeo no celular: uma fileira certinha de corcovas dorsais subindo da testa ao pedúnculo caudal, com a água fervendo de iscas logo adiante. Ninguém a bordo gritou. O vídeo termina com a câmera tremendo e uma mão cobrindo a lente. Nos pesqueiros grandes, histórias viajam mais rápido do que as barras de sinal, e esta disparou pelas casas do leme. As tripulações dizem que os encontros vêm em dias agrupados, depois param, depois recomeçam.

Há uma lógica que não exige maldade. Jubartes têm uma tática famosa chamada alimentação com rede de bolhas, em que cercam os peixes num cilindro apertado e se alimentam atravessando a bola comprimida. Arrastões fazem uma versão diferente com malha e aço. Quando os dois se encontram, a água se enche de pistas - ondas de pressão, som e peixes se agrupando desesperadamente. As baleias captam isso. Os barcos respondem reduzindo ou abrindo o rumo. Com o tempo, os animais aprendem onde estão as calorias fáceis. Do leme, isso pode parecer estratégia. Talvez seja algo mais simples: oportunismo encontrando memória muscular.

O que ajuda no convés quando gigantes seguram a linha

Tripulações que evitam o caos juram por um pequeno ritual: faça sua aproximação de forma constante e, então, fique quieto. Desligue sonares ativos por alguns minutos. Mantenha a proa apontada para passar ao largo do cardume, não direto para dentro dele. Mantenha uma velocidade baixa e previsível e deixe as baleias decidirem o próximo compasso. Muitos dizem que uma pausa de dez minutos “espalha” a linha. O barco não é mais o espetáculo; os peixes são. Quando a água relaxa, você avança.

Outra manobra que está circulando: mude o plano de rede, não o temperamento. Se as baleias se agruparem perto do seu cardume-alvo, trace um arco lateral a meia milha e reconfigure o arrasto. Não faça um círculo apertado. Evite arrancadas repentinas de aceleração que transformam animais curiosos em defensivos. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias. Numa viagem longa, com margens mais finas do que suas luvas, paciência parece luxo. Ainda assim, a paciência tem um jeito de reduzir consertos e multas.

Alguns conselhos parecem óbvios até o borrifo bater no seu rosto. Não jogue nada ao mar para “empurrar” as baleias para fora da sua linha. Não as acerte com apitos/noisemakers esperando uma passagem mágica. Não trabalhe tão perto do frenesi a ponto de um filhote ficar encurralado pelo seu equipamento. Um capitão veterano me disse em uma frase:

“Você não ganha uma discussão com um mamífero de quarenta toneladas. Você só consegue esperar mais do que o café da manhã.”

  • Corte o sonar ativo por janelas curtas quando as baleias se alinharem.
  • Mantenha um rumo constante passando ao largo do cardume e, então, reinicie mais aberto.
  • Registre hora, local e comportamento do encontro para identificar padrões.
  • Mantenha o equipamento de convés firme e as linhas desimpedidas para reduzir risco de emalhe.
  • Se a linha se mantiver, recue e tente outra área ou outro ciclo de maré.

A pergunta maior: propriedade, responsabilidade e um oceano em mudança

A disputa agora é mais do que uma largada de rede pela manhã. Pescadores veem cotas apertando, combustível subindo e outra força - selvagem e protegida - pedindo espaço sem pagar as contas. Conservacionistas veem uma história de recuperação nas populações de baleias, prova de que proteções podem funcionar, e um argumento para deixar os animais manterem rotas antigas num mar em transformação. Ambos os grupos apontam para mapas que antes significavam certeza e agora parecem provisórios. Todos nós já tivemos aquele momento em que o que sempre funcionou deixa de funcionar e você fica segurando o plano como uma ferramenta inútil.

Direitos no oceano não vêm carimbados em papel como peixe embalado. Eles existem na prática, na lei e no tempo. Baleias não estão reivindicando soberania. Elas estão seguindo alimento para lugares onde barcos também seguem alimento. A surpresa é a velocidade da adaptação. Se jubartes aprendem umas com as outras, tripulações também aprendem. Às vezes, esse aprendizado parece atrito. Às vezes, abre novas rotinas. A próxima temporada vai nos dizer para que lado o equilíbrio pende - e de quem a paciência dura mais. Essa pergunta fica no ar como sal na língua.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
- Jubartes parecem formar “paredes” soltas entre arrastões e bolas de isca. Entender o comportamento que molda encontros tensos no mar.
- Aproximações constantes, breves períodos de silêncio e reinícios mais amplos reduzem conflitos. Passos práticos para diminuir risco e manter dias de trabalho produtivos.
- A história mais profunda é sobre espaço compartilhado e aprendizado rápido dos dois lados. Enquadrar o debate além da indignação para planejar temporadas mais inteligentes.

Perguntas frequentes

  • As baleias estão realmente coordenando, ou é aleatório? Tripulações leem como coordenação porque a linha parece intencional. Biólogos descrevem respostas aprendidas de alimentação, nas quais várias baleias acompanham a mesma presa e umas às outras. O resultado pode parecer um bloqueio humano mesmo que comece como forrageio compartilhado.
  • Isso está acontecendo em todo lugar? Os relatos se concentram onde as corridas de isca são densas e o esforço de arrasto é alto. Isso inclui partes do Atlântico Norte e do Pacífico Norte. Não é um evento diário, mas é comum o bastante para que tripulações troquem dicas no rádio.
  • O que os barcos podem fazer sem violar a lei? Mantenha distâncias legais, reduza a velocidade perto de atividade de baleias e evite manobras que as pressionem. Muitos mestres reduzem por pouco tempo o uso de sondas/sonares ativos e reiniciam a aproximação. Essas medidas protegem tanto o equipamento quanto as baleias.
  • As baleias estão mirando os barcos de propósito? Não há sinal de vingança ou maldade. Baleias perseguem alimento e aproveitam oportunidades energeticamente eficientes. Redes concentram peixe. A sobreposição cria atrito que, no momento, parece pessoal.
  • Quem “é dono” do mar num caso como este? Ninguém, no sentido em que as pessoas costumam dizer. Há direitos, licenças e proteções que compartilham a mesma água. O que importa é como essas regras encontram manhãs reais no convés, e quão rápido pessoas e animais se adaptam uns aos outros.

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